Xangri-Lá tem metade da área urbana em condomínios fechados. E a água, quem controla?
São cerca de 50 condomínios ocupando metade do território urbano da cidade. Cada um deles é uma microrrede de água com regra própria — e o esgoto só chega a 96% em 2033.

Xangri-Lá virou o retrato do Litoral Norte gaúcho: são cerca de 50 condomínios fechados entre concluídos e em obra, ocupando metade do território urbano da cidade, segundo levantamento publicado pelo Jornal do Comércio.
O debate público sobre isso costuma girar em torno de mobilidade, contrapartida e convivência urbana. Há um lado menos discutido, e ele chega no boleto de todo mundo que mora dentro dos muros: cada condomínio fechado é uma microrrede de água com regra própria.
Onde termina a concessionária e começa o condomínio
A concessionária entrega a água num ponto e mede um número só. Dali para dentro, a rede é do condomínio — e a conta que chega no nome dele precisa virar centenas de contas menores.
Quem faz essa divisão é o próprio condomínio, com os critérios da própria convenção. Não existe fiscal externo conferindo se o rateio fechou. Se a soma das casas não bate com o que entrou, a diferença é rateada, e pronto.
Por que isso pesa mais no litoral
Três características somadas fazem do condomínio de praia um caso à parte:
- Ocupação sazonal. A mesma estrutura atende metade das casas em setembro e todas em janeiro. Rede que passa meses com baixa demanda tende a revelar problema quando a pressão volta ao normal.
- Área comum pesada. Piscina, clube, irrigação e lava-pés consomem o ano inteiro, e no verão consomem muito. Em condomínio urbano isso é detalhe; aqui costuma ser o maior consumidor isolado.
- Lotes grandes e rede longa. Mais metro de tubulação enterrada por casa significa mais junta, mais idade de rede e mais lugar onde um vazamento pode passar despercebido.
O esgoto ainda está chegando
A mesma reportagem aponta a cobertura de esgoto em torno de 60% ao final de 2025, com meta de 96% até 2033. Enquanto a universalização não chega, parte da água tratada que entra nos condomínios segue tendo destino local.
Para a gestão interna isso tem um efeito prático: em muitos contratos, o esgoto é cobrado como percentual da água medida. Errar a medição da água multiplica o erro na conta cheia.
O que o síndico controla de fato
Nada do que está acima é decisão de um condomínio isolado. O que está ao alcance dele é bem específico:
- Saber quanto entrou. Medidor na entrada, lido todo mês. Sem ele, não existe conta de perda — existe um total sem conferência.
- Saber quanto foi para as casas. Leitura com cobertura alta. Cada casa não lida vira estimativa, e estimativa vira diferença rateada entre os vizinhos.
- Saber quanto foi para a área comum. Medidor separado no clube e na piscina transforma "a piscina gasta muito" num número que dá para discutir.
- Ter prova de cada leitura. Foto do relógio com data. É o que encerra contestação sem desgaste.
Uma conta que vale fazer este mês
o que entrou pelo medidor da entrada − a soma das casas − a área comum = perda
Entre 5% e 10% é o normal do mercado. Acima disso, tem água tratada indo embora — e num condomínio com rede longa e ocupação sazonal, ela costuma ir embora por baixo do calçamento, sem molhar nada.
Com metade da cidade organizada em condomínios, essa conta deixou de ser detalhe administrativo de um ou outro empreendimento. É a forma como Xangri-Lá controla a própria água.
Com informações de Jornal do Comércio.
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